Mythos, da Anthropic, e GPT-5.6 Sol, da OpenAI, representam uma nova geração de modelos de IA de fronteira. Avaliações de segurança indicam que sistemas dessa categoria podem ampliar significativamente a capacidade de encontrar vulnerabilidades, atacar infraestruturas digitais críticas e auxiliar atividades relacionadas a armas biológicas. O Mythos chegou a ter seu acesso limitado, enquanto o lançamento do Sol enfrentou restrições e análises adicionais do governo norte-americano.
Os episódios demonstram que inteligência artificial já não é apenas uma tecnologia de produtividade. Ela começa a ser tratada como infraestrutura estratégica, comparável a semicondutores, energia, telecomunicações e equipamentos militares. Nesse cenário, a regulamentação do desenvolvimento de IA se tornou uma necessidade urgente – mas também uma disputa por poder.
Modelos de fronteira aceleram a regulamentação de IA
Tú Estados Unidos avançam na criação de mecanismos para avaliar modelos altamente avançados antes de sua liberação ampla. Demis Hassabis, CEO da Google DeepMind, propôs um órgão híbrido, financiado pelo setor, mas formado por especialistas independentes e capaz de testar sistemas, exigir correções ou interromper lançamentos considerados perigosos. A estrutura seria inspirada em organizações autorregulatórias do mercado financeiro.
O ideal seria estabelecer regras internacionais previsíveis, principalmente entre Estados Unidos e China. Um acordo desse tipo reduziria a possibilidade de empresas migrarem suas operações para jurisdições mais permissivas e criaria critérios comuns para riscos cibernéticos, biológicos e militares.
Entretanto, a cooperação entre as duas potências permanece pouco provável. Por isso, Hassabis acredita que uma iniciativa norte-americana pode acabar se transformando em referência para outros países. É um caminho imperfeito, mas potencialmente mais rápido do que esperar por um consenso global.
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IA pode se tornar a nova moeda geopolítica
Por trás da discussão regulatória existe outro problema: a hegemonia de Estados Unidos e China no desenvolvimento de modelos de IA. Quanto mais governos, indústrias, hospitais e instituições financeiras dependerem desses recursos, maior será o poder de negociação dos países que os controlam.
Os Estados Unidos já exercem influência por meio da dependência militar de aliados. A China, por sua vez, utiliza sua posição em cadeias de minerais críticos como instrumento econômico: suas restrições recentes sobre terras raras afetaram setores de tecnologia, energia, defesa e indústria automotiva.
No futuro, a IA poderá cumprir função semelhante. Uma potência poderia restringir modelos, chips ou acesso a data centers para pressionar outro governo. O impacto não se limitaria a chatbots: fábricas automatizadas, sistemas bancários, logística, pesquisa científica, defesa cibernética e serviços públicos poderiam perder capacidade operacional.
Eso dependência artificial cria riscos de segurança, espionagem, interrupção econômica e manipulação de informações. Países sem alternativas próprias ficariam sujeitos a decisões tomadas no exterior, inclusive durante crises diplomáticas.
Data centers podem oferecer poder de negociação
Tentar alcançar diretamente a fronteira norte-americana provavelmente não é uma estratégia realista para a maioria dos Estados. “O trem já partiu”. A OpenAI fechou uma rodada de US$ 122 bilhões em 2026, enquanto a Anthropic já havia mobilizado mais de US$ 90 bilhões desde 2025 e buscava dezenas de bilhões adicionais. Poucos programas públicos conseguiriam replicar essa escala de capital, talentos e capacidade computacional.
Uma alternativa mais pragmática é construir data centers locais. Essas estruturas permitem processar informações governamentais, financeiras e médicas dentro do território nacional, reduzem a exposição a interrupções externas e facilitam a operação de open-weight models caso o acesso às principais plataformas seja bloqueado.
Data centers também criam poder de barganha. Um país pode negociar com desenvolvedores de IA oferecendo energia, terreno, conectividade e aprovações mais rápidas em troca de acesso aos mesmos modelos disponíveis nos grandes mercados.
Os principais obstáculos são licenciamento, conexão à rede elétrica, disponibilidade energética e mão de obra especializada. Acelerar aprovações e permitir geração de energia dedicada pode ser mais eficiente do que conceder subsídios indiscriminados.
Especializações estratégicas reduzem a dependência artificial
Alguns países possuem pontos de controle importantes. Taiwan responde por mais de 90% da fabricação mundial de chips de última geração; a Holanda abriga a ASML, única empresa que levou sistemas de litografia EUV à produção comercial; e a Coreia do Sul concentra tecnologias fundamentais de memória de alta largura de banda para aplicações de IA.
Essas especializações oferecem influência e devem ser preservadas. Contudo, não equivalem a uma IA soberana. Possuir um elo da cadeia não significa controlar chips, energia, modelos, dados, pesquisadores, plataformas e distribuição simultaneamente. Mesmo esses países continuam dependentes de alianças e fornecedores estrangeiros.
O Brasil começa a buscar maior soberania tecnológica
O Brasil criou o Plan Brasileño de Inteligencia Artificial, com previsão de até R$ 23 bilhões entre 2024 e 2028. Entre as ações estão infraestrutura de processamento, formação de profissionais, pesquisa, inovação empresarial e modernização do supercomputador Santos Dumont. O país também instituiu o Redata a estimular data centers e lançou iniciativas locais, como o SoberanIA, desenvolvido pelo Governo do Piauí com dados e infraestrutura nacionais.
EL movimento, entretanto, ainda é pontual diante da concentração mundial de capital, chips e modelos. O Brasil precisará transformar planos em capacidade operacional, atrair centros de dados sustentáveis, formar especialistas e construir parcerias internacionais sem criar dependência exclusiva.
Países devem se preparar para negociar de maneira pragmática e transacional com as superpotências da IA. Para democracias que valorizam transparência e segurança jurídica, a América democrática tende a ser uma parceira melhor do que a China autoritária. Ainda assim, diversificar fornecedores, infraestrutura e alianças será indispensável.
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